reconstrução

ser-me
querer-me
somente para ter
somente para estar
quando encontrar-me

reunir-me
restaurar-me
até que antes de tudo
até que dentro de mim
tudo o que exista
seja a parte
de traduzir-me em toda arte

(Ana brincando com Roberto Joaldo)

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Cara Ana Alice, esteja onde estiver, em algum país maravilhoso, alcançado atravessando espelhos,

Venho revelar a você, para a minha própria e improvável salvação, que todo o infortúnio de minha vida reside nisso, no fato de escrever scraps. As pessoas dificilmente me têm enganado, mas os scraps quase sempre – e não apenas os scraps de outras pessoas, também os meus próprios scraps. Suspeito que esse meu especial infortúnio esteja se tornando um infortúnio geral.

A facilidade de escrever scraps tem causado um total desencontro na vida das pessoas nesse nosso mundo virtual. É, na verdade, um intercâmbio com fantasmas: e não somente com o fantasma de quem recebe, também com o próprio fantasma que desenvolvemos nas entrelinhas dos scraps que escrevemos e enviamos.

Como pôde alguém um dia inventar que as pessoas pudessem se comunicar umas com as outras através de scraps? Isto está além de nossas atuais forças!
Escrever scraps nada mais significa que desnudar-se diante de fantasmas: os nossos e os alheios. Coisa pela qual tais seres, no entanto, para suprirem seu vazio existencial, anseiam avidamente! Beijos e abraços escritos, por exemplo, quase nunca chegam íntegros a seu destino – em vez disso, são sorvidos e estraçalhados no caminho por bocas e braços famintos de seres insaciáveis!

É, pois, com essa vasta alimentação de beijos e abraços, dentre outros conteúdos saqueados dos scraps, que toda uma população monstruosa não pára de crescer. A humanidade já pressente a calamidade, contudo não combate para eliminar de vez esse componente fantasmagórico do interior dos scraps, e assim restabelecer a comunicação natural entre as pessoas. Sim, os fantasmas não morrerão de fome, mas para a vida nós já perecemos.

Conscienciosamente,
Reverendo John Waldo Carroll Kafka



(Poema e ilustração: Leminski)

Perfeição

Perfeito é o impar
que não se divide
perfeitamente
em outro par

Perfeito é o par
que se divide
perfeitamente
na forma de amar

Perfeito é quem sabe
perfeitamente
multiplicar

pre-texto

abaixo do título
complexo universo
um dia sem rima
outro sem nexo

gestação


fui prenhe
e não grávida
por que?
porque gosto
e aposto
que muita gente não
enquanto gatinha
solta na rua
nunca quis ser grávida
por que?
porque gata é prenhe

(1986)

noite e dia

Se a noite é fria,
esfria o dia.
O frio do dia
a noite resfria.
Se a noite é quente,
põe fogo no dia.
O fogo do dia
a noite é que sente.


desmanchar-se

não ser-me eu
não querer-me meu
somente sou para o mundo
somente estou no mundo
quando perco-me de mim

diluir-se
desmanchar-se
até que depois de tudo
até que fora de si
nada mais reste
senão arte:
traduzir-se em toda parte

(Roberto Joaldo brincando
com Heidegger e Leminski)

bem no fundo

no fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto

a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo

extinto por lei todo remorso,
maldito seja quem olhar pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais

mas problemas não se resolvem,
problemas tem família grande,
e aos domingos saem todos pra passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas

(Leminski)

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apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que depois
de mim
de nós
de tudo
não reste mais que o charme.

(Leminski)